Não temas, o Senhor está contigo!
       Era agosto de 1985, eu tinha quinze anos, estava na sala de aula quando elas chegaram: eram alegres, comunicativas, cheias de vida. Vestiam roupas diferentes, esquisitas não entendia muito bem porque usavam aquilo, mas gostei delas... Aos poucos fui me aproximando, queria ver de perto, elas logo apresentaram-se: "Somos as Irmãs de Santa Ana". Interessei-me e quis logo saber mais: da onde vinham, o que faziam e porque assim se vestiam? Irmã Leni logo me encantou, era muito simples e simpática. Falou-me de vocação, chamado de Deus, não entendi nada, mas demonstrei-me interessada. Então me convidou para conhecer onde ela morava. Eu nunca tinha ouvido falar em freira, convento e outras coisas mais. Não resisti a curiosidade e tive que ver como era. Moravam todas juntas, tinham um mesmo objetivo: seguiam Jesus Cristo pobre, casto e obediente. Partilhavam tudo o que recebiam, eram pobres e trabalhavam com os pobres, viviam com simplicidade, rezavam todas juntas numa capela da casa delas, eram felizes por viverem assim... Encantei-me!
      Nasci numa família quase toda evangélica, formação evangélica, mentalidade evangélica, muito boa por sinal. Eu não entrava em uma Igreja Católica, a não ser para casamentos e velórios de familiares. Não pretendia mudar isso, gostava da minha fé e queria continuar assim, mas gostei daquelas irmãs. Todos os finais de semana ia na casa delas, ficava lá, não falava quase nada, só observava, como é bonita a vida comunitária, como elas eram alegres e divertidas! Como era gostoso ficar lá! Trabalhava e rezava com elas. Mas era só isso.

      Os anos foram passando e a amizade com as irmãs aumentava, comecei a me interessar mais pela origem desta família religiosa, percebi que algo havia mudado dentro de mim, tinha agora 18 anos. Algo me inquietava, algumas perguntas não saíam da minha mente: Qual era o sentido da minha vida, quais eram os meus sonhos, meus projetos? Eu gostaria de viver assim como elas viviam? Fazer o que elas faziam? Algo me incomodava interiormente. Lembro-me que quando orava, pedia ao Senhor que tirasse estes pensamentos de dentro de mim. Quanto mais pedia, mais eles se repetiam. Mais tarde fui entender que isto era chamado de Deus. Um dia tomei coragem e conversei com as irmãs, elas não acreditaram muito em mim, com toda razão: Uma evangélica se tornar freira? Então falei o que se passava dentro de mim. Iniciamos então um acompanhamento vocacional. Como até então eu era evangélica, foi necessário fazer uma catequese para receber os sacramentos. Foram dois anos de catequese. Concluída a catequese pedi de fazer uma experiência no Aspirandato da Congregação das Irmãs de Santa Ana. Eu tinha vinte anos.
      Minha família, é claro, não entendeu, muito menos aceitou. Foram muitas as dificuldades que encontrei. Aos pouquinhos fui entendendo o que Jesus quis dizer quando falava para renunciar pai, mãe, parentes, amigos... não foi nada fácil! Minha família até entendia que eu quisesse mudar de religião, mas ir para o convento era demais! No começo foi difícil, ninguém acreditava que eu ficaria no convento,"logo ela voltará pra casa", eles diziam... Com o passar dos anos foi tornando-se mais difícil, pois percebiam que a minha escolha era séria.
      Vieram os primeiros anos da formação religiosa e o Senhor foi modelando-me, não foi um caminho só de flores, tantos obstáculos encontrei, muitos serviram para o meu crescimento e o Senhor me amparou com sua graça. Já se passaram vinte anos desde aquele primeiro passo, posso afirmar com profunda consciência: “O Senhor fez em mim maravilhas!” Por isso, hoje partilho com vocês irmãs e amigos, hoje minha vida tem sentido, tenho sonhos e projetos, desejo ser fiel até o fim! Sou feliz por ser Irmã de Santa. Sou infinitamente grata a tantas pessoas que apoiaram-me nesta caminhada até aqui, Deus vos abençoe!
     Minha família, ainda não sei se aceitou a minha decisão, mas com certeza procuram respeitar a minha opção. Quem ama respeita!
      E você jovem que sente o chamado de Deus, não diga não à Deus, não tenha medo de ser feliz!

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